NA ROTA DO MINÉRIO E DO COZIDO DE GRÃO

Foi no sábado passado que partimos uma flotilha (está na moda a palavra) de oito bicicletas para um raid que há muito andava a magicar.

Já tinha feito parte deste percurso em 2012, com outras nuances e a terminar noutro local, em Sanlúcar de Guadiana, mas fazia parte dos meus planos ligar as Minas de São Domingos a Vila Real de Santo António, pela rota do antigo caminho de ferro que transportava o minério das minas até ao Pomarão e depois da travessia do Guadiana, seguir quase sempre junto à margem direita do rio.

Pelo antiga rota do caminho de ferro é como quem diz, pois já se tem de fazer alguns desvios porque os túneis já não estão cicláveis e há muitas pontes que ruiram. Apenas o último túnel, já no Pomarão é transitável.

Organizar um passeio destes não é de todo fácil por causa da logística necessária para o transporte do pessoal e das bicicletas e da recolha no final do trajecto, mas não é impossível e com a minha teimosia e persistência a funcionar, lá se conseguiu compor o ramalhete para que o evento se realizasse.

Alinharam na maluqueira oito parceiros dispostos a enfrentar os 95Km do percurso cujo track me foi gentilmente cedido pelo amigo Eleutério do BTT  Baixo Guadiana, que também me deu umas dicas sobre o trajecto e o contacto do barqueiro que nos ajudou na travessia do Guadiana.

Contámos também com a abertura, finalmente, da ponte da Ribeira do Vascão, que nos fez poupar uns qilómetros na deslocação para o início da tirada. Chegámos até um pouco antes da hora prevista e no Restaurante São Domingos já cheirava a cozido de grão àquela hora... Quase que apeteceu ficar logo ali à espera para aviar umas pratalhadas.

Só que não! Fomos mesmo ver dos trilhos começando pelo antigo Cais de Transbordo de Minério, umas fotos junto à Lagoa Ácida e uma volta em redor da Lagoa da Tapada Pequena para vir sair junto às antigas Oficinas de Manutenção de Locomotivas. Seguiu-se o trajecto até à Achada do Gamo, pelo caminho de aspecto quase lunar por entre as ruínas das antigas infraestruturas das minas.

Dali segue-se sempre pelo antigo caminho que os comboios percorriam, pela paisagem alentejana, com muita ponte caída, muita porteira para abrir e fechar e alguns desvios para se evitar os túneis. É pena que não estejam transitáveis, seria um bom ponto de interesse fazer essa travessia, assim como a passagem pelo interior de algumas aldeias existentes.

Até ao Pomarão o percurso não oferece grande dificuldade, uma subidinha ou outra, mas a maior parte é rolante e depressa alcançámos o outrora cais de embarque do minério, que era ali carregado nos barcos que depois desciam o Guadiana. Estava quentinho o dia e com algum ventinho de frente, mas que até ajudava a dissipar o calor.

Chegámos mais ou menos à hora combinada e lá estava o Sr. Jorge já com a embarcação pronta para nos transportar para a outra margem. Quatro bicicletas de cada vez, duas viagens e estava feito. Só que do cais até à Mesquita tivémos de aviar logo um belo paposseco que nos fez suar as estopinhas, pois a subir não havia deslocação de ar e dessa forma sentia-se bem o sol a queimar a pele.

Como uma desgraça nunca vem só, apanhámos depois um single track que nos levou a uma descida quase impossível de descer montado nas bicicletas (houve quem descesse quase sempre montado), até cruzar a Ribeira do Vascão, do Alentejo para o Algarve. E vá de subir outra bela parede até Cortes Pereiras, antes de mais uns trilhos junto ao rio até Alcoutim.

Em Alcoutim estava programada a paragem para almoço. E o que é que comem uns ciclistas que fazem um trajecto destes num dia de calor? Algo simples e leve tipo... cozido de grão... Pois, já viham todos com ela fisgada desde as minas e até deu jeito o senhor do café não ter bifanas para todos. Pumba, abancámos no restaurante ao lado e vá de saciar a fomeca com uma bela iguaria típica da região.


Vá lá que depois até Foz de Odeleite fomos por asfalto, sempre é mais rolante e apesar do calor, foi-se digerindo o almoço. A seguir voltámos aos trilhos de terra, com passagem por Almada de Ouro, sempre pela margem do Guadiana, com direito a desbravar um canavial, antes de aviar a subida até ao Azinhal.
Compraram-se umas águinhas e umas colas no café lá da terra, descansámos um pouco e fomos ver da Junqueira.

Terminámos quase ao cair do sol pelos trilhos do Sapal de Castro Marim, até à entrada de Vila Real de Santo António. Já não fomos até ao outro lado, junto ao rio, pois estava um trânsito infernal por causa da feira anual.

Foi um dia memorável, em que de uma forma geral correu tudo bem, apenas com um furito e dois abandonos por cansaço e indisposição. Talvez noutra oportunidade faça um outro track, mais turístico, a passar em mais aldeias e outros pontos de interesse, mesmo que com mais alguns quilómetros. Cada vez mais aprecio este tipo de percursos, sem pressas e a usufruir da paisagem e da companhia.

Agradeço aos meus companheiros de jornada que aceitaram o desafio e que me fizeram companhia neste belo dia de pudalanço; ao amigo Luís Guerreiro da On Track Your Bike Store que nos ajudou na logística e ao meu colega Andriy que fez o favor de ser o motorista de serviço para nos dar apoio ao longo do percurso.

Continuem a pudalari!

Strava > https://strava.app.link/HGr1DIY9sXb

Fotos: Sérgio Palma, João Belo, Daniel Bagagem, Andriy Kuzmenko e Ricardo Espinha

Mensagens populares